2015 marca o décimo aniversário da primeira subida de Deau a um palco. Aconteceu no antigo Hard Club, numa das Nova Gaia Hip-Hop Sessions, mítico trampolim de várias carreiras, quando tudo o que valia a um MC era a sua postura, a sua força e a sua capacidade de equilibrar palavras de sentido em cima de beats fortes. Desde logo, Deau fez abanar cabeças, consciências e desde aí muitos foram os ouvidos que se sintonizaram com as suas rimas.

O início de tudo é anterior, no entanto. Começa algures no Grande Porto, em 1988, a data que o seu Cartão de Cidadão, onde se inscreve o nome Daniel Francisco, indica para o arranque da sua vida. A meio da década seguinte, Deau já tinha consciência da cultura que o haveria de acolher, mas foi preciso chegar este milénio para as primeiras palavras começarem a escorrer para os cadernos. A rua era a sua escola. Foi sempre assim.

E nas ruas inventam-se soluções, caminhos e identidades. Sem beats ou condições para gravar, Deau começou por se fazer notar nas rodas de improviso onde o que dita o respeito é a capacidade de improviso. E as palavras pareciam nascer, significantes e afiadas, dentro de Deau como a água numa nascente: puras, frescas, cheias de vontade de correr para dentro de ouvidos que as acolhessem. Esse nome da rua levou ao primeiro convite para a mixtape Illegal Promo III onde o seu tema “Lamento” fez a diferença, ecoando pelos subterrâneos do Porto e do País e impondo este nome cheio de sede e fome: Deau. Os convites foram-se sucedendo com eles registou-se o crescimento pessoal e artístico de Deau.

Em 2008, Deau encetou uma frutuosa colaboração artística com o Dj D-One que assinou a produção executiva de RetiEssências, o seu álbum de estreia. A colaboração foi aliás tão bem sucedida que dela resultaram mais uma série de faixas que ficaram de fora do álbum, mas não dos ouvidos de um público sedento que as acolheu quando Deau e D-One as decidiram disponibilizar, mesmo antes da saída do primeiro álbum, gesto de generosidade a que o público correspondeu com atenção.

A estreia de Deau vincou uma diferença. As suas rimas estão cheias de vida e é a própria biografia de Deau que se desprende de todas aquelas palavras. Por isso mesmo, os temas de Deau são retratos reais de uma vivência em comunidade, parte da razão para o impacto que registou no universo Hip-Hop. As pessoas ouvem aqueles temas e sentem a sua vida por ali também. Porque Deau não se limita a apontar problemas e obstáculos, preferindo oferecer caminhos e soluções. Deau é um MC com espírito de missão. E isso vinca-lhe a diferença.

E agora, 10 anos depois do princípio, Deau prepara-se para uma nova etapa. Há um novo álbum programado para o primeiro semestre do ano, mas para já as atenções concentram-se em “Andorinha”, uma poderosa metáfora para algumas das armadilhas com que a vida nos testa, e para “Diz-me Só”, outro retrato de uma vida real que Deau nunca esconde. No primeiro tema há a colaboração de Expeão, homem dos Dealema, e no mais recente é a voz de Bezegol que se junta à de Deau. O vídeos, em ambos os casos, são assinados por Miguel Januário, artista plástico que assina MAISMENOS que ainda recentemente deu imagens à ideia de revolução no festival Rotas & Rituais em Lisboa.

Entretanto, o ano continua a desenrolar-se e as conquistas de Deau vão-se amontoando. A mais recente e significativa passou por esgotar a pré-apresentação do álbum na Casa da Música, numa noite que ficará para a sua história pessoal e também para a história do hip hop nacional. Há rimas que traduzem sonhos e há sonhos que se tornam realidade.

A história de Deau segue dentro de momentos…