Em A Rapariga da Caixa, uma cançãozinha d’Os Quais, o anti-herói da história atira: “é amor, só pode, que no meu aipode ouço Os Pontos Negros”. Mas “amor”, devo dizer, não é a palavra certa. “Amor” é demasiado maiúsculo e demasiado equívoco, e estes afiadíssimos rocks d’Os Pontos apanham-nos é por outro lado. Chamemos-lhe o lado letra pequena. Chamemos-lhe o lado direito do cérebro. Chamemos-lhe o incorrecto charme da displicência. Chamemos-lhe: Pequeno-Almoço Continental.

O nome deste belo disco compacto diz tudo, aliás.

“Ou”, citemos Samuel Úria, “não”.

O facto é que Os Pontos Negros aceleram-nos corpo e espírito, ontem como hoje.

Esta música está mais crescida mas continua fresca. Esta música, ou não sei como lhe chame, faz sem esforço aquilo que tanta gente parece andar a dar a alma para conseguir: a fusão perfeita (tão perfeita que quase nem se dá por ela) entre guitarras eléctricas e a tal coisa tradicional portuguesa. Não é à toa que gritam “se o Variações fosse o meu barbeiro!”. Se gritam, é porque podem.

Esta música está diferente, sim, mas continua fiel à sua novidade. Aqui brincando com uns quantos vampire-weekendismos, ali reciclando todo o magnífico material inútil. Aqui com doces punkadas guillul, ali com pops de olhar para cima, dançar na luz.

Podia armar-me em crítico de jornal e arranjar adjectivos para cada canção – “Rei-Bã” é luminosa?, “Duro de Ouvido” é sinfónica? –, mas, por favor, não me obriguem a tanto. Eles fazem isto como se não fosse nada, versos falados em cima das notas, frases deixadas cair pelo canto da boca com a tal displicência charmosa do rock’n’roll. Não, Os Pontos não se põem em bicos de pés, mas o que conseguem não é coisa pouca. Sem pretensões e com o máximo de ambição, falam de nós aqui. Contra a corrente, não se fecham nos truques do negrume e da depressão. Lançam energia no mundo, põe-nos a saltar, a acreditar na vida, rocks para cima, de subir até ao sol. As tuas asas derretem?