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OS QUATRO E MEIA

Quando a Academia de Dança da irmã de Tiago Nogueira precisou de angariar fundos para um sarau no Canadá, o vocalista e guitarrista lembrou-se de chamar “amigos da faculdade e secundário” para um concerto de beneficência. Só apresentaram sete versões de música portuguesa mas a reação motivou-os a continuar. E a compor. “Seis, sete meses mais tarde”, recapitula, “tínhamos as primeiras musicas prontas”.

Os Quatro e Meia concluíram os estudos académicos, evoluíram para sexteto mas mantiveram o batismo original. “Começámos por ser só cinco. Salvo seja, já que o Rui [Marques, contrabaixista] não tem dimensão para isso. Não é que o valor dele ano seja igual ao dos outros mas a estatura dele deixa um pouco a desejar”. A gargalhada coletiva fica para dentro por já estarem habituados à pergunta que não se fica pela metade. Mas se é assim, porque não Cinco e Meia? “Só no terceiro concerto é que o Pedro [percussionista] entrou. E nessa fase já tínhamos vinte seguidores e um álbum. De fotos”, graceja Tiago Nogueira, porta-voz não nomeado da banda nascida e criada em Coimbra, no meio estudantil e boémio, onde ainda mantém o quartel-general. “Cinco e Meia também não soava tão bem”.

Agora já são doutores mas continuam a brincar a sério. Longos dias têm quatro anos de concertos para amigos e amigos de amigos a jogar em casa, de amizades que ajudaram a espalhar a palavra, de pequenos vídeos publicados na internet para aguçar o apetite e convidar a degustar a refeição completa, isto é, vê-los e ouvi-los a escrever postais da vida real em forma de canção em palco e de um disco imperioso para amplificar a história.

“Não começámos por acaso mas continuámos por acaso. Funcionou muito o boca-a-boca. E a nossa música tem muito a ver com o gosto de Coimbra”, refere Tiago Nogueira. ”Pontos nos Is”, álbum definido por harmonias e melodias universalistas, que se inscreve no cancioneiro moderno de música popular portuguesa com referências de Rui Veloso, Miguel Araújo, Azeitonas e António Zambujo, sentiu o sol em pleno verão e retirou do trono do top nacional “Excuse Me”, ressuscitado pela vitória de Salvador Sobral na Eurovisão.

Explicações há várias embora nenhum definitiva. Por exemplo, o facto de metade dos músicos exercer medicina e ter convencido os pacientes a comprá-lo. Ou os salários acima da média dos médicos ter contribuído para a compra de um CD.”Havia muita gente a pedir o álbum”, defende Rui Marques. “Até porque nunca publicámos todas as músicas na internet”. A banda recorda com bom humor as notícias publicadas nessa semana. “Salvador Sobral já não é líder do top nacional… mas está a dobrar no pódio”. “Ninguém falava dos Quatro e Meia”, conta a banda consciente de estar a passar por um processo natural de apresentação ao público nacional, como aliás aconteceu no concerto no Sol da Caparica.

Entre o real e a ficção, nunca se fica com a sensação de que os Quatro e Meia vivem na fantasia mas, no processo de acertar os ponteiros, ganharam uma legião generosa de seguidores. “Nós somos muitos e temos família numerosas”, insistem em desviar com ironia e sem maldade. Tiago Nogueira acrescenta à teoria da conspiração um pingo de neo-liberalismo: “A questão não é termos muitos amigos. É termos amigos muito capitalistas que compram aos dez e vinte CD”.

Três médicos – de pediatria, família e interno-cirurgia toráxica – um engenheiro civil, um professor de violino e um web designer constituem um grupo a quem ainda não se coloca o eterno dilema entre trabalho e prazer. “Nós gostamos do que fazemos. Não queremos que esse dia chegue”, defende o vocalista e guitarrista.

Conciliar os dois ofícios é possível graças “ao sacrifício das vidas pessoais”, à “compreensão dos colegas” e “dormindo cada vez menos”, continua. Para poderem atuar no festival MEO Marés Vivas, em Gaia, foram obrigados a tirar um dia de férias. Na Caparica, beneficiaram do calendário de fim de semana e ainda tomaram um banho de mar antes das obrigações. E sempre que um dos músicos não pode chegar a tempo aos ensaios de som, funciona o mecanismo de solidariedade dentro do próprio grupo.

Os Quatro e Meia vestem fato e gravata em palco, têm empregos vitais para a sociedade mas, por dentro, são um grupo de amigos em férias de verão.